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2 Junho 2020

Mário Linhares

no VENTRE do PEIXE

Universidade de Lisboa, Faculdade de Belas-Artes

Palavras chave:

Desenho, Belas-Artes, Bíblia, Jonas, 

    O livro de Jonas é um dos mais pequenos da bíblia, mas sempre inspirou artistas e outros autores desde, pelo menos, a arte das catacumbas. O profeta rebelde terá vivido algures no século VIII a.C., mas calcula-se que o livro tenha sido escrito três séculos mais tarde. Jonas ficou conhecido por ter sido engolido por um grande peixe, passando lá dentro três dias e três noites. Tudo por ter recusado dirigir-se a Nínive, a capital do grande império Assírio. 

    Jonas, nome hebraico que significa pomba ( יוֹנָ֥ה | yonah), ficou para sempre ligado a esta história mítico-fantástica de alguém que precisou de um confinamento forçado até ser vomitado – outras traduções possíveis da palavra hebraica ( וַיָּקֵ֥א | wayyāqê) são cuspido ou regurgitado – indicando o tempo certo para voltar a terra firme.

    De dentro da barriga do peixe, o autor da narrativa (este sim, desconhecido), atribui a Jonas um cântico/oração que é uma autêntica ode académica. Não havia ainda notas de rodapé, mas ele cita vários Salmos, o livro de Job ou o das Lamentações. Agarra-se a tudo o que lhe é possível para conseguir alicerçar o seu pedido de chegar a território seguro, como que mostrando que não bastam as próprias ideias para se tomar decisões. É preciso procurar as “raízes das montanhas” como ponto de partida. Estará o autor do texto a falar de Jonas ou da sua contemporaneidade?

    Na minha investigação em Belas-Artes – Desenho, os textos bíblicos são uma base de trabalho que me colocam a desenhar a partir do sentido do texto e não da sua ilustração. Nesta linha, o vídeo que se apresenta para o evento 5 minutos de Desenho mostra o momento em que é iniciado um desenho da serra de Sintra, feito a lápis de grafite, cerca de trinta minutos antes do pôr do sol e continuado até à ausência completa de luz solar. Com a escuridão, a imagem do desenho desaparece naturalmente e a metáfora de entrar no ventre do peixe estabelece-se pela ausência de luz. Faz-se um parênteses apenas para fazer notar que se encontrem várias traduções para o “ventre” do peixe, utilizando-se por exemplo a palavra “barriga”. No original em hebraico, a raiz da palavra ( מֵעֶה | me’eh) pode também significar partes ou órgãos internos, o que amplia as possibilidades de interpretação para o processo criativo. O que se pode encontrar de visceral no interior da escuridão? 

    O vídeo continua até ao amanhecer o que, lentamente, faz o desenho aparecer novamente. Já numa nova folha e usando diretamente a tinta da china pura e diluída com a ajuda de trinchas, pincéis, galhos e aparos, a força da escuridão levou o desenho para uma nova direção. A delicadeza que o lápis de grafite mostrava foi substituída pela rudeza texturada a pincel da tinta da china. 

    Jonas decidiu dirigir-se a Társis em vez de Nínive. Apanhou um barco e o mar tumultuou-se ao ponto dele ter de ser atirado ao mar. Foi engolido por um grande peixe. Teve o seu tempo de confinamento visceral, foi regurgitado e, finalmente, percebeu que tinha mesmo de ir a Nínive.

    Saber que se tem de percorrer um caminho, mas evitá-lo, parece ser algo que atravessa o nosso ser desde há vários milénios. Talvez desde sempre. Recuperar os textos bíblicos para o ventre do processo artístico nunca me pareceu tão importante e visceral como agora.

Texto narrado no vídeo (Jn 2, 1-11):

O Senhor fez com que ali aparecesse um grande peixe para engolir Jonas; e Jonas esteve três dias e três noites no ventre do peixe. Jonas fez esta oração ao Senhor, seu Deus, do ventre do peixe, dizendo:

«Na minha aflição invoquei o Senhor, e Ele ouviu-me.

Clamei a ti do meio da morada dos mortos, e Tu ouviste a minha voz.

Lançaste-me ao abismo, ao seio dos mares, e as correntes das águas envolveram-me.

Todas as tuas vagas e todas as tuas ondas passaram por cima de mim.

E eu já dizia:

‘Fui rejeitado de diante dos teus olhos.

Acaso me será dado ver ainda o teu santo templo?’

As águas me cercaram até ao pescoço,

o abismo envolveu-me,

as algas pegavam-se à minha cabeça;

desci até às raízes das montanhas, até à terra cujos ferrolhos me prendem para sempre.

Mas Tu, Senhor, meu Deus, salvaste a minha lama do sepulcro.

Quando desfalecia a minha alma lembrei-me do Senhor;

a minha oração chegou junto de ti, até ao teu santo templo.

Os que se entregam a ídolos vãos abandonam a sua fidelidade.

Eu, porém, oferecer-te-ei sacrifícios com cânticos de louvor e cumprirei os votos que tiver feito, pois do Senhor vem a salvação.»

Então, o Senhor ordenou ao peixe e este vomitou Jonas em terra firme.

https://hakunamatatayeto.blogspot.com/

ESTE TRABALHO É FINANCIADO POR FUNDOS NACIONAIS ATRAVÉS DA FCT – FUNDAÇÃO PARA A CIÊNCIA E A TECNOLOGIA, I.P., NO ÂMBITO DO PROJETO “UIDB/04042/2020”