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2022

Janeiro 2022 Today´s classical drawing

Daniel Gamelas :: Atelier de Arte de Realista do Porto

Nelson Ferreira :: A palavra é de prata o silêncio é de ouro

Xavier Denia :: O ensino artístico na Academia de Arte de Barcelona

Ramon Hurtado :: Desenho de modelo no século XIX

Silvia Marieta :: Desenho : Alicerce da pintura

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Janeiro 2022

Daniel Gamelas :: Atelier de Arte de Realista do Porto

Nelson Ferreira :: A palavra é de prata o silêncio é de ouro

Xavier Denia :: O ensino artístico na Academia de Arte de Barcelona

Ramon Hurtado :: Desenho de modelo no século XIX

Silvia Marieta :: Desenho : Alicerce da pintura

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Silvia Marieta

Desenho : Alicerce da pintura

Meu foco é a representação da figura humana, tendo como técnica de eleição, a pintura a óleo sobre tela. Rostos, mãos, corpos, são-me imensamente sedutores, dedico horas na “construção” de uma imagem que envolva a figura humana. Tecnicamente o resultado pretendido consiste na sobreposição de inúmeras camadas de tinta, que vão criar determinado efeito visual. 

Mas pretendo representar mais do que uma imagem externa, tento estabelecer uma relação entre o exterior e o interior; por interior, entenda-se o mundo psíquico, o mundo do pensamento, emoções, e até a alma.  Por vezes utilizo a representação da matéria visceral para aludir à sua relação com estes aspetos da dimensão humana.

Pretendo também cristalizar um momento específico,  de grande intensidade, carga emocional. Sirvo-me da minhas próprias experiências de vida, como material narrativo.

Através de certos efeitos técnicos, composição, repetição ou eliminação de elementos, torno quase “palpável” algo que não é imediatamente visível…

Mas o processo não se limita a uma série de aspetos técnicos, há todo um preparo do ambiente, estado mental, que também serve como propulsor. É também um processo solitário, pois só assim a criatividade pode vir à tona. O fascínio por outras imagens, sejam elas pintadas ou não, servem de inspiração, combustível, e combinadas com estímulos auditivos (música) têm a capacidade de acionar a mente visual. 

Retrato, surrealismo, realismo, hiper-realismo, académico, naturalismo, expressionismo e mais recentemente alguma abstração, foram várias as fontes de inspiração ao longo dos anos, partindo de outros artistas e movimentos artísticos, que venho “absorvendo” e transmitindo nas minhas criações, em maior ou menor dose, na tentativa de alcançar em uma imagem algo intenso e hipnotizante …

Sílvia Marieta nasceu em Lisboa, em 1982. O desenho e pintura estão presentes na sua vida desde tenra idade. Iniciou na pintura a óleo como autodidata, na adolescência (1998) e posteriormente formou-se em Pintura, na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa (2006); foi também neste ano que começou a expor, e desde então tem estado presente em diversas mostras de arte, coletivas e individuais, a nível nacional e internacional. Tem realizado inúmeros retratos e pinturas originais, presentes em diversas coleções particulares, em Portugal, Espanha, França, Bélgica, Canadá, etc.; e tem colaborado com ateliers, boletins informativos, e edições de poesia, como ilustradora. Tem bastante obra representada online, e desde 2016, está presente em catálogos de arte figurativa internacionais (realista, hiper-realista, académica…) como o “Guia Leonardo” e o “Anuario Arte y Libertad” publicados pela Galeria Artelibre. E tem sido também presença constante na revista/plataforma de arte “The Guide Artists” desde 2018. Sempre com o intuito de melhorar e adquirir mais conhecimentos, apostou em formações de pintura e desenho académicos,de figura humana, no Atelier de Arte Realista do Porto, Barcelona Art Academy e Galeria Roja, em Espanha, e no The Florence Studio, em Itália (2017-2019). Reside no centro de Portugal, nos arredores de Tomar, onde busca um ambiente que proporcione a inspiração…divide-se entre a maternidade e a criação artística.

https://www.instagram.com/silviamarietapintora

http://marieta-arte.blogspot.com/

https://pt-pt.facebook.com/silvia.marieta

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Ramon Hurtado

Desenho de modelo no século XIX

Although it’s often dismissed as a purely “technical” concern, representation has been one of the most enduring fascinations of my life. The idea that you can take charcoal, pigments and oil and arrange them in such a way that they can almost become water, flesh, gold or satin, is invested with a power and mystery that is hard to put into words.

Seen in this way, drawing and painting become more than just vehicles for self-expression, they can serve as a way of interfacing with the world- a way of asking questions from life, a way of slowing down and learning to actively appreciate the miracle of existence, a way of generating stillness in the midst of chaos. 

The result is a kind of artwork that is effectively a love letter to a person, to a tree, to life itself. Work that stems from our desire to hold onto things and, in a small way, to safeguard what we love against the creeping impermanence of our lives. This impulse, common to all of us, flourished in the 19th century, and it’s the source of the tremendous kinship I feel with this period. 

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Xavier Denia

O ensino artístico na Academia de Arte de Barcelona

Entrevista:

Professor na Academia de Arte de Barcelona, Xavier Denia é um artista com profundo interesse pelo desenho, escultura e pintura. É licenciado em Belas-Artes (Barcelona) e estudou arte realista em Itália em diversas escolas. Tem muita experiência como professor de desenho tradicional, pintura e escultura. Ensina estudantes de todos os níveis os princípios básicos e avançados necessários para aprender a observar e ser capaz de traduzir essa informação de diferentes maneiras. O retrato e a figura humana são os seus temas de eleição e os que mais estudou, esperando poder partilhar tudo o que aprendeu com quem tiver interesse em aprender.

Teacher at the Barcelona Academy of Art, Xavier Denia is an artist with a deep interest in drawing, sculpture and painting. He has a degree in Fine Arts (Barcelona) and has studied realist art in Italy in several schools. He has much experience as a teacher of traditional drawing, painting and sculpture. He teaches students of all levels the basic and advanced principles necessary to learn to observe and be able to translate that information in different ways. Portraiture and the human figure are his subjects of choice and the ones he has studied the most, and he hopes to share all he has learned with anyone interested.

Link:

https://www.instagram.com/xavi_denia/     

@xavi_denia

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Nelson Ferreira

A palavra é de prata, o silêncio é de ouro

Neste vídeo tenciono falar sobre o ressurgimento da técnica clássica no ensino das artes visuais, tanto no ocidente como no oriente – e como há novamente uma onda crescente de artistas jovens que querem retomar tipos de conhecimento que quase se perderam. O desenho será aqui entendido como a arte de compreender e estruturar a forma, podendo ser feito com qualquer técnica – inclusivé de pintura (ex: podemos desenhar as formas com o pincel).

Nelson Ferreira especializou-se em técnicas de antigos mestres europeus (pintura flamenga a óleo, técnicas barrocas a óleo, assim como desenho e pintura académica do século XIX). Estudou Pintura na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa e continuou estudos na Universidade Prince’s Foundation. Foi por duas vezes o artista convidado pela National Portrait Gallery, nomeadamente para ensinar técnicas de desenho do Renascimento, durante a exposição de desenhos de Holbein e Leonardo. Convidado pela Saatchi Gallery para criar aulas de arte, assim como pelo Banco da América, além dos Gabinetes de Arquitectura KPF e Farrell’s, do Discovery Channel, do Grupo Grosvenor, etc. Em Portugal, deu cursos de técnica de pintura flamenga primitiva no Museu Nacional de Arte Antiga, na Universidade Autónoma de Lisboa e desenho académico na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, entre outras instituições. É formador de artistas da Walt Disney, ensinando desenho e pintura às equipas da América do Norte e Reino Unido. Foi convidado em 2021 a ser artista residente no MNAC Museu Nacional de Arte Contemporânea, onde se encontra a criar obras inspiradas na colecção do Jardim das Esculturas. 

Links
www.nelson-ferreira.com

pt.bargue.org

@nelson.ferreira.visual.artist 

https://uk.linkedin.com/in/nelson-ferreira-visual-artist
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Daniel Gamelas

Atelier de Arte Realista do Porto

Entrevista:

Daniel Gamelas is a sculptor and drawing teacher that Works in Porto, Portugal.

He graduated in Sculpture at the Faculty of Fine Arts of Porto and is holder of an MFA at the New York Academy of Art, where he saw his work being distinguished by “The Complete Sculptor Award” for Excellence in Sculpture.

His Sculptures explore the relationships between the body, origins and mythology. He has integrated several individual and group shows, in Portugal, Spain and New York, from where its possible to give emphasis to the Works “Origins”, “Domains”, and “Matriarchal Ceremonies for the worship of the most ancient deities of “Cabeço das Fráguas”: Trebopala, Laebo, Trebaruna”.

He is a founding member of AARP (Oporto Atelier of Realist Art, being responsible for the drawing program. His courses are based on the academic tradition of figurative representation.

Links:

https://www.instagram.com/danielgamelas

https://www.instagram.com/portoatelier

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December 2021

Ethnography

Grupo do Risco :: Grupo do Risco

Fernando Galhano :: Desenho Etnográfico

Filipa Pontes :: Arritmia17

Roque Gameiro :: Roque Gameiro

Guida Casella :: Ilustração Arqueológica

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Guida Casella

Ilustração Arqueológica


“Pense bem, o que o fez ter interesse pela Arqueologia e o passado profundo? Provavelmente foram Desenhos”

Resumo: 

O Desenho Arqueológico é uma vertente de Ilustração Científica, uma prática com 500 anos de uso de imagens ao serviço da ciência. 

A colaboração entre artistas e cientistas resulta na criação de desenhos para comunicar a vários níveis:  primeiro,  ajudam o cientista a estudar o seu referente (no caso da Arqueologia, através de plantas da escavação e desenho de artefactos para classificação), segundo, ilustram as comunicações científicas entre os especialistas (usando convenções específicas de cada comunidade de prática), e terceiro (em arqueologia são desenhos de época à maneira de ´pintura de história’) destinados à comunicação com o público em geral por via da museografia e interpretação de património.

Neste vídeo optei por mostrar a execução de um desenho arqueológico de um ídolo de calcário focando nos gestos necessários ao traçado, como se fosse apenas um bailado das mãos.

Na conversa / entrevista exploraremos a minha formação do desenho artístico ao desenho científico e abordaremos o workflow profissional nesta área (casos estudo, clientes, aplicações diversas do desenho).

Bibliografia:

Adkins, L., e R. Adkins. (1987)  Archaeological Illustration. Cambridge. Cambridge: Cambridge University Press.

Casella, Guida. (2005) “The Picturesque in Portuguese Archaeological / Historical Landscape Illustrations”, Tese de Mestrado , Swindon College, University of Bath, UK. Disponível online em: 

https://www.academia.edu/36153080/The_Picturesque_In_Portuguese_Archaeological_Historical_Landscape_Illustrations

Casella, Guida. (2010) “A criação de Imagem na Arqueologia” (“The Creation of Image in Archaeology”), in “As imagens com que a ciência se faz” (“The Images with Which Science is Made”), Org. POMBO, Olga and di MARCO, Sílvia, Fim de Século-Edições, Lisbon, ISBN 978-972-754-279-6, pp45-56.

Casella, Guida. (2019) «Digital Storytelling for Archaeology: Unveiling the Story of Zambujal in 20th and 21st century Visual Media Formats.» Tese de Doutoramento, Lisboa: FCSH – Universidade Nova de Lisboa. https://run.unl.pt/browse?type=author&value=CASELLA%2C+GUIDA+PAOLA+SILVEIRA.

Davinson, Brian. (1997) Picturing the Past through the Eyes of Reconstruction Artists

London: Gatekeeper Series from English Heritage

Dobie, Judith, e Chris Evans. (2010) Archaeological Illustratoris: A History of the Ancient Monuments Drawing Office. Research Department Remport Series 33. Portsmouth: English Heritage. https://issuu.com/akis4/docs/archaeology-and-illustrations.

Dobie, Judith. (2019)  Illustrating the Past: Artists’ interpretations of ancient places. London: Historic England.

Galhano, Fernando (1947). Desenho Etnográfico de Fernando Galhano I – Portugal. Centro de Estudos de Etnologia. Lisboa: Museu Nacional de Etnologia, 1985. 

Lemos, Manuel. (2001). Historiografia do Desenho Arqueológico. Disponivel online em: https://silo.tips/download/historiografia-do-desenho-arqueologico

Hodgson, John. (2001) Archaeological reconstruction: illustrating the past. IFA PApers nr 5. Reading UK: University of Reading.

Opgenhaffen, Loes (2021) «Visualizing Archaeologists: A Reflexive History of Visualization Practice in Archaeology». Open Archaeology 7 (1): 353–77. https://doi.org/10.1515/opar-2020-0138.

Raposo, Luis. (2019) «A ultima desenhadora do MNA». O PÚBLICO, 16 de Julho de 2019. https://www.publico.pt/2019/07/16/culturaipsilon/opiniao/ultima-desenhadora-museu-nacional-arqueologia-1879843.

Sousa, Fernanda (1999). Introdução ao Desenho Arqueológico, Câmara Municipal de Almada, Museu Municipal, Núcleo de Arqueologia e História. 

Biografia

Guida Casella, n.1974, Lisboa é Licenciada em Pintura pela FBAUL (2001) tem um Mestrado em Ilustração Arqueológica pela Univ. Bath, UK (2005) e um Doutoramento em Media Digitais pela FCSH-UNL Programa UT Austin -Portugal (2019). Foi bolseira da FCT (2011-15). É criadora de conteúdos digitais interativos na área do Património tendo desenvolvido a museografia digital do Castro do Zambujal (audioguia e aplicação móvel) em 2018. É professora de Desenho Arqueológico na Faculdade de Belas Artes de Lisboa desde 2019. É ilustradora científica desde 1998  desenhando o Menino do Lapedo e colabora desde então com diferentes entidades na área do património arqueológico e museografia (Instituto Arqueológico Alemão, IGESPAR, UNIARQ, Museu Nacional de Arqueologia, entre outros). Reside e tem atelier no Montijo onde realiza atividades culturais desde 2009. Teve uma exposição individual na Galeria Municipal do Montijo (‘Arqueologia: Desenho Científico e Outras Histórias’, Ago2018), desenvolve com a Galeria Municipal atividades de desenho com a comunidade (Ilustrar Montijo com Guida Casella). Criou e dinamizou a feira de edição independente Dona Edite (2015-17). Leccionou Pintura na Universidade Sénior do Montijo e dá aulas particulares a crianças e adultos na Sociedade Filarmónica 1º de Dezembro desde 2010.

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Roque Gameiro

Entrámos no Atelier de Roque Gameiro; sentado em frente do seu estirador aí está o nosso homem: paleta na mão esquerda, pincel de fraco calibre (de pêlo de marta), na mão direita. É este um dos seus ambientes de trabalho – a sua casa. Chamou-nos a atenção a quase inexistência de pincéis de grande calibre, como se lhe bastassem para tudo os pequenos pincéis de retocador- cromista. Prefere as tintas em bisnaga às de pastilha (pelo menos nos trabalhos em atelier), maioritariamente de origem inglesa (Winsor & Newton) assim como os papéis (Whatman) em relação às francesas (Lefranc) e aos papéis franceses (Canson). Reparámos que o seu atelier está cheio do que hoje se chamariam “gadgets”, destinados a facilitar o trabalho. Vimos uma caixa para pintar no exterior, feita por ele, comportando paleta, pincéis, tintas, bloco de papel, trapos, cantil e vasilha para a água, perfeitamente arrumados.

Nasceu em Minde, em 1864, onde iniciou os primeiros estudos; era um miúdo que só queria fazer bonecos. Com 10 anos foi enviado pelos seus pais para Lisboa, a fim de “estudar e, ao mesmo tempo, trabalhar nas oficinas gráficas e editorial do seu irmão Justino. A sua habilidade e hábitos de trabalho permitiram-lhe ganhar experiências e conhecimentos na arte de ilustrar e, aos poucos, foi avançando nessa via, primeiro em trabalhos secundários e depois, autorizado e encorajado para executar ilustrações como autor. A proximidade das técnicas da impressão “cromista” manual, litográfica, com a aguarela, conduziu-o naturalmente a enveredar por esta. Em 1884, foi para Leipzig, estadia com consequências importantes na sua formação. O ambiente do Romantismo tardio alemão despertou-o para uma valorização das culturas tradicionais, por oposição ao cosmopolitismo de influência francesa que dominava o meio artístico em Portugal. A busca de uma autenticidade nacional, e a procura de uma compreensão meditativa da Natureza, perante a qual se colocava numa posição de humildade e de busca de identificação levaram-no a fugir da produção artística da “moda”.

Os temas populares / etnográficos são parte significativa do legado do artista. Esta realidade reflecte o gosto de uma época, marcada por um processo de “construção da nação” que, não tendo começado nesta fase, assume neste período grande fulgor como a produção e divulgação intensa de imagens, narrativas e referências que definiram o que foi ser Português no século XX, comprovam. Se a execução recorrente desta tipologia de trabalhos, a maioria deles por encomenda, reflete uma época, traduz, ao mesmo tempo, o gosto do artista pela ilustração.

Numa carta que escreveu ao irmão Justino, diz-lhe que o desenho é a base de qualquer processo de ilustração. Vimos no seu atelier desenhos esquemáticos e de detalhe, vimos o desenho como ferramenta de estudo dos elementos da composição (estudos de: fardas, embarcações, e da cenografia de “As pupilas do senhor Reitor”) e da cor. Em muitas aguarelas acabadas estas desenvolvem-se sobre o desenho, mas também vimos desenhos que são estudos prévios às aguarelas.

Ilustrar exigiu também, da parte do pintor, a eleição de um método de trabalho muito rigoroso: do desenho à vista, dos esboços em atelier, passando por ajustes de último instante, RG submete cada desenho ao crivo rigoroso de um caminho feito de etapas, até à ilustração final.  O artista recolhe informações no terreno, tanto ao nível do enredo como da composição das paisagens. No atelier, estrutura a cena, define cores, legenda no próprio desenho detalhes relativos a cenários, objectos, bem como uma pré-seleção de cores a utilizar. Todo este processo plasma de uma forma concreta a herança milimétrica do desenhador litógrafo que RG também é. A formação superior recebida em termos académicos permitiu-lhe dominar as noções de perspectiva, proporcionalidade, definir pontos de fuga, linhas de força, escolher enquadramentos e, acima de tudo, gerir a economia de cada trabalho, não deixando “espaços por preencher”, equilibrando a dinâmica de cada cena apresentada.

Depois desta visita que foi um recuo no tempo, percebemos melhor, hoje, em 2021 o Homem e o aguarelista. 

Quando analisamos a obra de Roque Gameiro, a sua produção de teor histórico, os seus trabalhos de índole republicana onde o herói povo se manifesta, quando verificamos que a sua arte não se filia em nenhuma escola, moda ou estética impostas, sendo o resultado genuíno de alguém que definiu com clareza e autonomia o seu caminho, quando descobrimos que Roque Gameiro pai de família, artista e cidadão educou os filhos para a liberdade numa época onde tal realidade era tão rara, poderemos afirmar, quiçá,  que a independência foi um valor de actuação transversal na vida do artista. Esta perspectiva ajuda-nos a compreender o trajecto singular da vida e obra do artista de referência na aguarela em Portugal.

Morreu em Lisboa, em 1935. A sua figura ficou muito marcada pelas suas origens, formação e convicções. O fundo tradicionalista das suas convicções mostra-se nos “mottos” “Honra teus Avós” e “Pátria, Família, Arte”

O Centro de Artes e Ofícios Roque Gameiro (CAORG) é uma instituição sem fins lucrativos que tutela o Museu de Aguarela Roque Gameiro (MARG), situado em Minde, que se assume-se como museu temático dedicado à divulgação da técnica da aguarela e da obra de Roque Gameiro. Inaugurado em 2009, é o único museu do país cujo espólio é constituído unicamente por desenhos, aguarelas e um fundo arquivístico pessoal de Alfredo Roque Gameiro. A casa que lhe é dedicada integra ainda espaços técnicos e expositivos dedicados às diversas práticas artísticas (desenho, aguarela, outras). 

O MARG é tutelado e dirigido pelo CAORG- O Museu afirma-se como paradigma de transformação social fundamentada no reforço local das identidades e cultura e distingue-se, sobretudo pela acção de mediação comunitária reflectida numa programação diversificada que traduz o conhecimento da comunidade a que se dirige e nas inúmeras parcerias desenvolvidas a nível local.

Biografia

Alfredo Roque Gameiro nasceu em Minde, em 1864 e morreu em Lisboa, em 1935. Nasceu num meio humilde, provinciano mas honrado e cedo mostrou a vontade e a capacidade de procurar outros horizontes para a sua vida. Essas qualidades levaram-no a procurar uma vida ligada ao desenho e às artes gráficas, beneficiando de algum apoio familiar e tornando-se praticante do ofício de desenhador litógrafo.

Aí, porém, revelou capacidades e interesses para “além” do simples ofício gráfico e atraiu as atenções do meio artístico desse tempo de modo a merecer receber uma bolsa de estudo, para actualizar e ensinar a técnica da Litografia, então ainda recente em Portugal.

O seu contacto com ilustradores e desenhadores que confiaram a Roque Gameiro os originais a editar ou publicar para, como desenhador litógrafo os passar à pedra litográfica, levou-o a pertencer ao núcleo de amadores que se reunia na Sociedade Nacional de Belas Artes e, aí terá tido ocasião de conhecer Rafael Bordalo Pinheiro e outros ilustradores e pintores das várias tendências e formações, que por lá se encontravam, além de escritores, poetas e outras figuras da cultura.

A técnica do “colorista litógrafo” está bem longe da dominante pintura “a óleo” e Roque Gameiro, naturalmente, interessou-se pela então pouco apreciada e pouco desenvolvida “aguarela” cuja prática em Portugal não ia muito mais longe do que as lições do espanhol Casanova, à Rainha e a outras senhoras amadoras.

Roque Gameiro, no entanto, percebeu o valor da aguarela como veículo de expressão artística, quer no domínio da paisagem, como Russel Flint, que no domínio da ilustração como por exemplo com Arthur Rackham que, entre outros, o influenciaram. A paisagem, o estudo das figuras populares e a ilustração de temas históricos tornaram-se, assim, os seus domínios naturais de trabalho. Uma certa reputação que já ia adquirindo, permitiu-lhe ganhar conhecimentos sobre as formas que então tomava a técnica da Litografia.

Na Alemanha (de que RG não gostou …) adquiriu e reforçou hábitos de disciplina, de seriedade, de gosto pelas actividades de exterior e de observação da Natureza, que o acompanharam toda a vida.

Na obra de Roque Gameiro reside uma atitude de humildade e de veneração perante a Criação, que transparece nos mais pequenos pormenores, na ternura com que qualquer pedra, qualquer árvore, qualquer reflexo na água é tratado, como que identificando-se com ele. É essa força que nasce da humildade e do respeito pelo objecto, e maximamente quando o objecto de contemplação é uma pessoa, que faz com que nos seus retratos se atinjam alguns dos momentos mais altos da pintura portuguesa. Origens, formação e convicções reflectiram-se numa carreira nacional e internacional, largamente premiada.