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Junho 2021

João Fazenda :: Trama – Desenhos Soltos
Sara Amado :: A grande pausa
Planeta Tangerina :: Um lugar onde tudo pode acontecer
Hollis Hammonds :: A dark wood grew inside me
Kalandraka :: Kalandraka

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João Fazenda

Trama – Desenhos Soltos

Entre os trabalhos de ilustração sempre tive folhas de papel por perto onde fui experimentando e registando diferentes figurações, materiais, temas e inquietações que surgiam e surgem diariamente.  Desenhava sem programa, às vezes como quem passeava pelo seu bairro, outras com quem explorava territórios desconhecidos, outras ainda em que me limitava a registar impulsos ou ideias ou a projectar mundos imaginários em folhas avulsas.


Durante muito tempo não liguei muito a estes desenhos que iam surgindo nesses intervalos entre trabalhos. Via-os sobretudo como ensaios de técnicas e registos para depois eventualmente experimentar num livro ou num jornal . Ou como um diário gráfico sob a forma de folhas soltas. O que é certo é que estes desenhos foram-se acumulando, guardados em caixas ou em gavetas. Com o tempo tornaram-se cada vez mais importantes para mim.  Pensava neles como os meus trabalhos de casa, ou como uma ida regular ao ginásio, exercícios para manter o desenho em forma. No entanto pareciam já não serem só zona de ensaio para as transformações que de tempos a tempos tenho necessidade de trazer às minhas ilustrações.  

A determinada altura tornou-se claro para mim que estes desenhos não eram só esboços e que no conjunto pareciam constituir um corpo autónomo de trabalho. Naqueles intervalos, que valorizava cada vez mais, tinha surgido um espaço onde a minha prática de desenho ganhava autonomia sobre a ideia de reprodução, sobre a dimensão projectual das imagens e explorava territórios que escapavam ao âmbito do trabalho de ilustração. Eram desenhos mais directos, feitos sem rede, mais espontâneos, que não escondiam as suas falhas, hesitações, certezas e incertezas. Cheios de imperfeições que me fascinavam. Eram também desenhos feitos sempre no atelier, imaginados ou de memória, raramente de observação directa. E também eram mais pessoais e intuitivos por oposição ao diálogo implícito na ilustração. 

João Fazenda (1979, Lisboa) Estudou Artes Gráficas na António Arroio e licenciou-se em Pintura pela Faculdade de Belas-Artes de Lisboa. O seu trabalho parte do desenho para explorar várias das suas possibilidades enquanto motor de criação de imagens, passando pela ilustração, cinema de animação, banda desenhada e pintura. Trabalha regularmente como ilustrador para a imprensa desde 2000 assinando ilustrações para diversas publicações nacionais e internacionais. Actualmente colabora regularmente com a New Yorker, The New York Times e a Visão. Deu aulas de ilustração no Ar.Co e é hoje professor de ilustração na FBAUL. 

Assinou livros de banda desenhada, ilustrou muitos outros, desenhou capas de discos, cartazes de cinema e campanhas institucionais. Realizou os filmes de animação “Café” em parceria com Alex Gozblau, “Algo Importante” e “Sem Querer”, ambos com argumento de João Paulo Cotrim, e “Mesa”, apresentado em 2020. No mesmo ano estreou no Teatro Luís de Camões o espectáculo da sua autoria “Grande Estrondo”, onde mistura desenho ao vivo e manipulação de imagens e sombras projectadas, dando continuidade ao trabalho desenvolvido com o espectáculo “Retrato Falado”, criado com Pedro da Silva Martins e estreado em 2014 no Teatro Maria Matos em Lisboa. Dos vários prémios que o seu trabalho recebeu destacam-se o Prémio de Ilustração BIG -Bienal de Ilustração de Guimarães em 2018, Prémio Nacional de Ilustração 2015, o World Illustration Award atribuído pelo Association of illustrators (UK) e pelo Directory of Illustration(USA) na categoria de ilustração para livros em 2017, o Grande Prémio Stuart-El Corte Inglês de Desenho de Imprensa 2007 e o Prémio António Gaio- Melhor filme de animação Português no Festival Cinanima para o filme “ Sem Querer” em 2011.

Foi ainda várias vezes distinguido pela Society of Illustrators NY, Society of News Design, 3X3 Proshow, Communication Arts e American Illustration.

Participou em diversas exposições colectivas e individuais um pouco por todo o mundo. 

Actualmente vive e trabalha em Lisboa depois de uma década a viver em Londres.

Info@joaofazenda.com

www.joaofazenda.com

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Kalandraka

A Kalandraka Portugal nasceu em 2002, quatro anos depois da casa-mãe galega, tendo a proximidade geográfica e linguística, pela afinidade criada pela partilha antiga de uma língua comum, o galego-português, gerado essa possibilidade. O objetivo inicial prendeu-se com a intenção de publicar álbuns ilustrados para pré-leitores e primeiros leitores num país onde, na altura, com algumas exceções, pouca tradição havia a esse nível. Surgiram então os Livros para Sonhar, inicialmente repartidos por adaptações de contos tradicionais, como o Coelhinho Branco, que marcou o arranque do catálogo português; clássicos universais de todos os tempos, cujo exemplo mais paradigmático será talvez o Onde vivem os monstros de Sendak; e obras de produção própria, desenvolvidas no seio da Kalandraka, quer a partir de projetos internos, quer externos, pela receção de originais, ou por via do Prémio Internacional Compostela. Clara foi também, desde logo, a intenção de dar projeção ao trabalho artístico de escritores e ilustradores portugueses, levando-os para fora e fazendo o movimento inverso. Esse plurilinguismo e multiculturalidade têm sido o lema da Kalandraka e o nosso fator de ligação enquanto pequeno grupo editorial internacional que, paulatinamente, se foi ampliando e solidificando. Se tem sido uma constante o facto de publicarmos em comum, sempre que possível, obras de Lionni, Anthony Browne, Ungerer, Sendak ou de produção própria, também não tem deixado de ser uma mais-valia a coexistência de alguma autonomia editorial entre ´Kalandrakas’. De outro modo, no nosso caso, teríamos simplesmente estado, desde 2002, a comprar direitos estrangeiros, enquanto grupo editorial, e a traduzir livros para português, publicados pela casa-mãe, e não nos teríamos sediado em Portugal, como editora nacional, com tudo o que isso implica estruturalmente e em termos de produção e distribuição num mercado diferente, mais concentrado, mas simultaneamente mais limitado em número de leitores, o que não tem deixado de ser um desafio quando pensamos em tiragens, quantidade e seleção de novidades anuais ou apostas de maior risco. 

Talvez mais visível no campo dos direitos estrangeiros, essa autonomia permitiu-nos, enquanto Kalandraka Portugal, negociar e enriquecer o nosso catálogo com obras de autores de referência da LIJ que as editoras do grupo não puderam adquirir por estas já se encontrarem publicadas nos seus países. Eric Carle, com destaque para A lagartinha muito comilona; Jimmy Liao que, com Noite estrelada, arrecadou em 2017 o Prémio Nacional de Banda Desenhada na categoria de Melhor Ilustrador Estrangeiro de Livro Infantil no Amadora BD; ou Shaun Tan assim o ilustram.

A nível da produção própria, em menor escala, mas especialmente a partir de 2009, pela implementação em Portugal da Faktoria K, uma chancela do grupo orientada para a publicação de poesia, ciências e, mais recentemente, de ficção e ensaio para adultos – realçando o lançamento no nosso país da Gramática da fantasia de Rodari ou do Ler o mundo de Petit, com capas de ilustradores portugueses –, urdimos um pequeno catálogo em língua portuguesa, editando autores basilares como Pessoa, Bocage, Florbela Espanca, Cesário Verde ou Mário de Sá-Carneiro, numa coleção de Antologias Poéticas. Pelo trabalho pictórico nelas desenvolvido, alguns ilustradores e artistas plásticos portugueses receberam recomendações e Menções Honrosas no Prémio Nacional de Ilustração, prémio este que coube em 2017 a Fátima Afonso por Sonho com asas, nomeado também para Melhor Livro Infanto-Juvenil pela SPA.

Manter a coerência e a qualidade estética e literária do que publicamos tem sido, em suma, a nossa política editorial nestes 19 anos de labor, ao longo dos quais, no que à LIJ concerne, fomos assistindo à evolução do mercado português, pelo aparecimento de novas editoras, ilustradores ou livrarias especializadas; pelo desenvolvimento de estratégias de animação e promoção à leitura por parte do PNL|LER+, cujo selo abarca grande parte do nosso catálogo; pelos apoios à edição intermediados pela DGLAB ou pelo reforço da presença portuguesa em Feiras Internacionais. Termos também contribuído para esta dinâmica e sermos atualmente reconhecidos como marca no nosso país, pois são os livros que publica que fazem uma editora, muito nos orgulha e estimula a continuar.

Margarida Noronha
(Diretora Editorial Kalandraka Portugal)

http://www.kalandraka.com/pt

https://www.facebook.com/Kalandraka.Portugal

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Hollis Hammonds

A dark wood grew inside me

Drawing has always been the most immediate and accessible form of communication for me. I’m interested in how drawing can depict both tangible and intangible things, how images can document events or represent memories, and how marks and materials in themselves have meaning and feeling. I’m not interested in representing things exactly as they appear, but rather the construction of an image that is part real, part invented, and maybe part lies, yet through the combination of all of these aspects is more authentically a representation of the truth.

Much of my work has been focused on the documentation of both natural and man-made disasters, primarily representing the aftermath of such events including piles of rubble and detritus strewn across the landscape. When I was 15 my childhood home had been burned to the ground leaving only charred black remnants of my family’s tangible assets. That memory was seared into my mind, has permeated my creative work, and more recently has taken on new meaning in the context of the climate crisis. 

In 2019 I began a collaboration with poet Sasha West. West’s poems question our culture’s belief in limitless growth. Collapsing time, her speakers range across eras and historical events to try and articulate their role as witnesses in the first generation to feel palpably the effects of climate change (mere decades after global warming was first named). Reading and responding to her manuscript, Solastalgia, I began to make a new series of automatic drawings. These drawings reflect the melancholy and darkness manifest in West’s poems. 

For my 5 minutes of drawing I wanted to provide a glimpse into this collaboration by sharing a sound recording of Sasha West reading one of her poems, “Ode to Fossil Fuel,” alongside documentation of the making of an automatic drawing. 

Mirroring the intensity of her words, I wanted to capture the almost frantic process of marking, coating, scratching, scrubbing and washing, revealing an image that reflects my own anxiety around the current state of the environment. Beyond the recognizable imagery I’m interested in how the mark or material can form meaning, from the resist created by the line drawing (an imprint of history), to the the blackness and opacity of the ink (like an oil slick coating the landscape), to the impermanence revealed through the scratching and scrubbing off of the pigment (alluding to the fragility of the environment).

For me, drawing is immediate, transformative, and honest. It is an excellent medium for discovering one’s own language and truth.

Hollis Hammonds is a multimedia artist whose work, built on memory and utilizing evidence from the public collective consciousness, investigates social issues ranging from economic disparity and state violence to environmental degradation and man-made disasters. Hammonds work has been exhibited widely, she is the author of Drawing Structure: Conceptual and Observational Techniques, and has had her creative work featured in numerous publications. She is a Professor of Art and Chair of the Department of Visual Studies at St. Edward’s University in Austin, TX.

www.hollishammonds.com

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Planeta Tangerina

Um lugar onde tudo pode acontecer

Planeta Tangerina trabalha-se sobretudo o formato álbum – aquele onde texto e imagens trabalham em conjunto para criar um resultado único, impossível de alcançar se ambos os códigos (escrito e visual) não caminhassem em harmonia. 

Este projeto editorial nasceu após alguns anos de trabalho de equipa. Até então dava-se resposta sobretudo a encomendas externas: clientes que pediam conteúdos escritos, ilustrações ou projetos “chave na mão”. Em 2006, após algumas experiências e como resultado da necessidade de criar um projeto mais autoral (livre de briefings, correções, imposições e preconceitos), surgiram os primeiros livros.

Planeta Tangerina

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Bernardo P. Carvalho

Autor e ilustrador

Estudou Design de Comunicação da Faculdade de Belas Artes de Lisboa e fez o Curso de Desenho na Sociedade de Belas Artes.
Faz parte da equipa do Planeta Tangerina, onde tem desenvolvido trabalho na área da ilustração de livros, revistas e outros projetos para crianças e jovens.

Ilustrou livros como “Desvio” (uma novela gráfica juvenil com texto de Ana Pessoa), “Lá fora” (um guia para descobrir a natureza com texto de Maria Ana Peixe Dias e Inês Teixeira do Rosário), Plasticus maritimus (um livro de divulgação científica com texto de Ana Pêgo e Isabel Minhós Martins) e “Gosto, logo existo” (um livro sobre jornalismo, redes-sociais e fake news com texto da jornalista de Isabel Meira).

Os seus livros têm ganho inúmeros prémios nacionais e internacionais e estão publicados em mais de 25 países.

Principais distinções

• Prémio “Non-fiction” BolognaRagazzi Award 2019

• Seleção Prémio ALMA 2019 e 2020

• Prémio Deutscher Jugendliteraturpreis 2017 (Alemanha)

• Prémio Gustav-Heinemann Friedenspreis 2017 (Alemanha)

• Prémio “Opera Prima” Bologna Ragazzi Award 2015

• Prémio Nacional de Ilustração 2009 e 2020

• Vencedor do 2nd CJ Picture Book Awards 2009 (Coreia)

• Menção Honrosa Best Book Design from All Over the World 2008

Madalena Matoso

Autora e ilustradora

Nasceu em Lisboa em 1974. É ilustradora. Tem uma licenciatura em Design de Comunicação, pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa e uma pós graduação em design gráfico editorial pela Universidade de Barcelona.

Em 1999 criou o Planeta Tangerina com três amigos.

Tem trabalhado na área do livro ilustrado e na comunicação para crianças e jovens. 

Ilustrou, entre outros, os livros “Quando eu nasci”, “Cá dentro”, “Não é nada difícil”, “Livro Clap” e “Para que serve?”. Os seus livros estão traduzidos para diversas línguas.

Dá aulas de Ilustração na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Lisboa desde 2010.

Principais distinções

• Menção “Art, Architecture and Design” BolognaRagazzi Awards 2018

• Menção New York Rights Fair (Livro Infantil) 2018 (EUA)

• Prémio Nacional de Ilustração 2018 e 2008

•Menções especiais no Prémio Nacional de Ilustração em 2006, 2007, 2009 e 2014

• Prémio Sociedade Portuguesa de Autores (Melhor Livro Infanto-Juvenil) 2015

• Prémio BD Amadora 2008 e 2011

Yara Kono

Autora e ilustradora

Nasceu em São Paulo, Brasil. É ilustradora e designer gráfica.

Estudou Farmácia Bioquímica na Universidade Estadual Paulista (UNESP) e Design e Comunicação na Escola Panamericana de Arte e no Centro de Design de Yamanashi, no Japão.

Faz parte da equipa do Planeta Tangerina desde 2004.

Tem trabalhado na ilustração de diversos livros, entre eles “Batata chaca-chaca”, “Assim ou assado”, “Cem sementes que voaram” e “A manta”.

Principais distinções

• Seleção Bologna Illustrators Exhibition 2018

• Seleção Nami Concours 2017 (Coreia do Sul)

• Prémio Bissaya Barreto 2016

• Menção “Opera Prima” Bologna Ragazzi Awards 2013

• Prémio Nacional de Ilustração 2010

• Menção Prémio Compostela 2008 (Espanha)

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Sara Amado

A grande pausa

Como a Grande Guerra ou a Grande Depressão, a Grande Pausa (como passou a ser chamado, este nosso tempo na História, por vários pensadores desde o verão passado) carrega no nome as letras capitais que fazem dos nomes nomes próprios. Próprios, mas gerais, porque são de todos. Quantas histórias há de artistas que se descobriram artistas no meio de uma estadia forçada em casa?

Normalmente em consequência de uma doença, esses confinamentos do mundo levaram-nos a lugares que nunca antes haviam experimentado. Já nós, estamos confinados todos ao mesmo tempo, sofremos de uma doença coletiva, mas mantemos uma forte ligação ao mundo, e ao mundo inteiro, permanentemente, ainda que de forma remota, ao contrário desses artistas de tempo idos. O que nos fará este confinamento? Como nos descobriremos após esta Grande Pausa? Chamo-me sara, sou mãe, arquiteta, cenógrafa, professora de desenho e penso, escrevo e seleciono álbuns ilustrados. Já ilustrei dois. Mas é como curadora que aqui
estou hoje.

Foi na arquitetura de um álbum, na cabana que as crianças tantas vezes abrem sobre a cabeça mesmo antes de saberem ler, que encontrei o lugar certo para poder ligar todas estas partes de mim e pensar o mundo. Foi isso que decidi vir hoje aqui fazer: desenhar uma curadoria para os tempos que vivemos através de uma seleção de álbuns ilustrados. Tempos em que, fechados em casa, observamos e interpretamos, o mundo e nós próprios, tal como quando desenhamos ou abrimos um álbum. Comecei por arrebanhar muitos livros, todos os livros, livros a mais.

Pensei em escolher produção 100% nacional, mas depois vi que havia escolhas internacionais incontornáveis para desenhar esta grande personagem coletiva que somos de há um ano para cá. Procurei tipos de ilustrações diferentes e formatos interessantes; ilustradores menos conhecidos e grandes estrelas internacionais; novidade e vintage; álbuns sem palavras ou só com palavras. Como mostrar toda a riqueza contida nestes objetos, supostamente infantis, dos quais me vou servindo numa tentativa de organizar o mundo? A curadoria, tal como o desenho, implica selecionar o que se quer dar a ver. Como no desenho, tenho de escolher com que linhas, manchas e espaços quero contar esta história, sob pena de, decidido o enquadramento, não parar de desenhar e acabar por tapar o desenho anulando-o a si próprio.

5 minutos de desenho 5 álbuns ilustrados para a Grande Pausa

UM LIVRO PARA TODOS OS DIAS Há mesmo um livro para todos os dias. Porque todos os dias contam uma história mais ou menos interessante. Há dias que esticam e outros que não sabemos para onde foram.


Em qualquer dos casos, o tempo ganhou agora um peso, uma presença e uma espessura totalmente diferente do tempo pré-Grande Pausa.

Apercebemo-nos de que o mundo afinal acontece sem nós, ao mesmo tempo que sentimos que não podemos viver sem ele. Descobrimos um grande amor não correspondido. VAZIO E o vazio instala-se. Na verdade o vazio já lá estava preenchido por mil e uma coisas mais ou menos importantes. O vazio pode ser difícil, mas é também fundamental para que possa ser preenchido pelo que realmente interessa. Vamos por tentativa e erro, como o Sr.

Branco, que se passeia pelas páginas, vazio até de palavras. Palavras que são tantas vezes a mais, palavrosas, palavrões. O PROTESTO Na Grande Pausa, o mundo inteiro ficou em suspenso. Engasgado, em pausa, expectante. Não escolhemos esta paragem, tal como, afinal, este pássaro não escolheu calar-se. Não protesta contra nada, apenas engoliu uma tampa e não consegue falar. Mas o seu silêncio é como uma peça de dominó que cai provocando um outro movimento.

Desse silêncio, deste silêncio, decorrerá sempre uma consequência. A que dermos espaço para acontecer — enquanto pessoas e enquanto civilização. O LOBO, O PATO E O RATO É fácil acomodarmo-nos ao que temos. Mas esse acomodar pode ter um sentido: o de olharmos para este novo enquadramento e tirarmos dele o melhor que houver para tirar. O de reaprendermos a estar, já sem a urgência e o entusiasmo de uma novidade, mas com a segurança e a força que vêm de uma decisão. Como a do rato e do pato que podem ter sido engolidos, mas comidos é que não.

O que parecia ser o fim da história, foi afinal o início de uma bela vida. Não será esta Grande Pausa afinal uma Grande Oportunidade? A GRANDE QUESTÃO E chegamos à grande questão: uma grande oportunidade para quê? O que procuramos realmente? Qual o sentido de tudo isto? Do tempo, do vazio, do mundo, dos outros, de cada um? Podemos, como o pato, não fazer a mínima ideia ou ter já algumas pistas. Mas, como uma criança ou um filósofo, os mais sábios dos sábios, não podemos parar de perguntar. A ausência de dúvida deve ser um lugar muito inóspito.

curador – aquele que tem cuidado e apreço; que zela, cuida e dá atenção a alguma coisa. álbum – branco, tábua, um conjunto de folhas para apontar informações importantes.

ilustrar – iluminar, tornar claro, explicitar, purificar via sacrifício.

Quando penso uma curadoria, seja para uma pessoa, para um tema ou para um acontecimento, na minha cabeça corre um rol de livros que tenho armazenados na minha memória e na minha experiência. Por vezes pesquiso fora de mim e dos meus lugares conhecidos para tornar o desenho o mais rico possível. Fazer curadoria também é desenhar, sim: observar, selecionar e interpretar. No sentido em que pensamos num todo e determinamos as suas partes, damos corpo a um conceito, a uma ideia, a uma observação. Tal como quem desenha, um curador, pausa, devota especial atenção a alguma coisa e faz a sua interpretação, através da sua seleção. Um livro é um lugar que se constrói, não apenas pela autoria, mas também pela leitura. Um livro não está pronto quando sai da gráfica, só fica completo quando alguém o lê. Um livro precisa de relação.

Há quem diga que abrir um livro é como abrir uma janela ou a cortina de cena de um teatro e deixar que a magia aconteça.
O livro é um refúgio, uma cabana, que configura um espaço próprio. É, por isso, como o desenho e a ilustração, uma experiência espacial. Os álbuns ilustrados são normalmente livros infantis. Livros ditos fáceis de ler e de apreender, porque têm imagens que ajudam a compreender o sentido. Mas a verdade é que a linguagem ilustrada é muitíssimo complexa, porque é simbólica e muitas vezes metafórica.

Ler uma ilustração é, por isso, mais uma operação de reconhecimento do que de conhecimento. Nada fácil, portanto. E esta dupla leitura, de texto e ilustração, constitui também um outro tipo de experiência espacial. Abrir um livro é pôr o mundo em pausa e entrar num outro lugar. Um lugar de revolução e oportunidade. A REVOLUÇÃO O tempo é de revolução. A vida virou-se do avesso e nada será como antes. Há um antes que acarinhamos, claro, mas há muita coisa para mudar. Mas se mudarmos coisas ao acaso, só porque estamos cansados, aborrecidos, inconformados, desconfortáveis, incomodados, então faremos uma revolução circular que nos levará, como ao homem do chapéu, exatamente ao lugar onde estávamos. Aproveitemos então esta pausa para a revolução. Façamos da Grande Pausa a Grande Oportunidade.

Bibliografia:

Um livro para todos os dias
Planeta Tangerina, 2004
Isabel Minhós Martin texto, Bernardo P. Carvalho ilustrações
isbn 9789898145406

Vazio
Pato Lógico, 2014
Catarina Sobral
Isbn 9789899847033

O lobo, o pato&o rato
Orfeu mini, 2018
Mac Barnett texto, Jon Klassen ilustrações
isbn 9789898868138

A grande questão
Bruaá, 2008
Wolf Erlbruch
isbn 9789898166029

O Protesto
Orfeu Negro, 2020
Eduarda Lima
isbn 9789898868824

A revolução
Alfaguara, 2017
Slawomir Mrozek texto,  Tiago Galo ilustrações 
isbn 9789896653354

Sara Amado é mãe (há 16 anos), arquiteta — FAUTL (há 22 anos) e dá aulas de desenho (há 14 anos).

Nasceu em Lisboa (há 45 anos), cidade onde vive.

Trabalha em áreas diversas, como arquitetura, design gráfico, design (prémio no concurso Designwise 2.0 da Experimenta Design, 2004) e cenografia (prémio da Mostra Estatal de Teatro de Nuevo Leon, México, 2002).

Foi responsável pela cenografia e figurinos da companhia Lilástico (1999 a 2006) e da companhia Ninguém (2014 a 2020). Trabalhou com os encenadores Marcos Barbosa, Catarina Requeijo, Jacinto Lucas Pires e Ivo Alexandre.

Escreve sobre livros infantis no site que criou — prateleira-de-baixo — desde 2009.

Ilustrou dois livros infantis da coleção Quem, com texto de Jacinto Lucas Pires (Editora Paulinas).

Tem-se especializado na curadoria de livros infantis, tendo desenvolvido a Biblioteca do Público — Livros espetaculares (mesmo!) (2018), para o teatro LU.CA — Teatro Luís de Camões, em Lisboa.

O pacote™ é um serviço de curadoria personalizada, que criou em 2016, em que escolhe e envia dois livros por mês especialmente para cada criança inscrita.

No festival Lisboa5L, (2020), foi responsável pela curadoria e coordenação da equipa d’A janela.

sara@prateleiradebaixo.com 

https://www.prateleiradebaixo.com/

instagram.com/prateleira_de_baixo/

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Maio 2021

Carolina Correia :: Ilustração Científica e Sustentabilidade

Dilar Pereira :: Caderno de Campo e Ilustração Científica

Luísa F. Nunes :: Arte e Ciência para um bem maior

Luísa Crisóstomo :: Desenhar para conhecer

Lúcia Antunes :: Desenhar, Entender, Comunicar

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Luísa Nunes

Arte e Ciência para um bem maior

Escondi os meus desenhos durante muito tempo. Achava que o mundo académico ligado à ciência, onde me colocava, não iria entender esse sentido da complementaridade.
Tanto a ciência como a arte são tentativas humanas de compreender e descrever o mundo que nos rodeia. Por isso tento comunicar ciência usando arte e escrita principalmente
relacionadas com o mundo natural.

Biografia
PhD em ecologia, docente do Instituto Politécnico de Castelo Branco- ESACB, ensina entomologia e biomimetismo. Investigadora do CEABN- INBIO.


Instagram: @luisalark_


NUNES, L. (2020). Silenciosamente/Silently (edição bilingue). RVJ (Ed). 100p.

POLO, T, GOMEZ, P, NUNES, L & Bordona , F. (2020) Libélulas del Sistema Central. Univ Avila (Ed.). ávila, Espanha,118 p. ISBN: 9788490405512

NUNES, L. 2019. Notas de Campo na Beira Baixa /Field notes in Beira Baixa. Edição bilingue. RVJ (Ed.). (texto e ilustração) 150 p ISBN: 9789722317115

NUNES, L. 2019. Travels in the Winderness. Diário da Natureza. Exclamação (Edt). (texto e ilustração) , 140p, ISBN: 9789895420506

NUNES, L. 2018. Pássaros. Dário da Natureza, Editora Exclamação. (texto e ilustração) 120 p. ISBN: 9789899995802

NUNES, L. 2017. Os contos de Alice. Exclamação (Edt), Portugal. 280 pgs. (ilustração), ISBN: 9789899995857 SELEÇÃO FNAC

NUNES, L. 2016. El Alcaudón real. Universidad Catolica de Avila (Ed.). Colecion Medio Ambiente . 200 p.
NUNES, L. 2015. Património Vivo.Natural.PT, Casa da Moeda INCM (Ed.). Portugal. (texto e ilustrações) ISBN: 9789722723879
NUNES, L. 2015. Arctic. Exclamação Edt. Portugal. ISBN: 978-898-991163-6-4 (versão em inglês e em português)

NUNES, L. 2014. Amazónia. Exclamação Edt., Portugal. ISBN-
10: 9899916315. (texto e ilustrações)

NUNES, L. & SCHOOLER, L. 2013. Irises and Feathers. A journey in Southeast Alaska. University of Fairbanks, Alaska (Edt.), USA. (inglês)

NUNES, L. 2013. Diário da Natureza – Lince ibérico. Planeta vivo (Edt.), Portugal. ISBN-10: 9728923643 (texto e ilustrações) SELEÇÃO FNAC

NUNES, L , 2013. Nature Diary. Africa. Planeta Vivo/CIBIO (Edt.), Portugal. (inglês) ISBN-10: 9728923627. (inglês)/ (texto e ilustrações) SELEÇÃO FNAC

NUNES, L , 2013. Diário da Natureza. África. Planeta Vivo (Edt.), Portugal.

NUNES, L , 2012. Diário da Natureza. Rios, Riachos e Charcos. Planeta Vivo (Edt.), Portugal. ISBN-10: 9728923619 (texto e ilustrações) SELEÇÃO FNAC

NUNES, L. 2011.Diário das Florestas. Ano Internacional das Florestas.

Europress (Ed.), Portugal. ISBN:9789725593233 (texto e ilustrações) SELEÇÃO FNAC NUNES, L . Diário da Natureza. Animais e plantas de Portugal. 2008, 2009, 2010 Europress (Ed.), Portugal. ISBN:9789725593127 (texto e ilustrações) 3 edições.

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Lúcia Antunes

Desenhar, Entender, Comunicar

Através do desenho é possível observar melhor, entender, registar e comunicar factos e conceitos. Nesse registo, a ilustração científica tem um poder enorme quando se trata de criar empatia entre as espécies representadas a um público que se pretende aliciar para a participação na sua conservação.
O desafio de ilustrar espécies como os morcegos passa por dar rosto ao desconhecido e arrancar um animal que vive geralmente de mitos para o domínio público e para um entendimento da sua importância.

Biografia

Lúcia Antunes
Lisboa, 1985

Designer de comunicação | Ilustradora científica | Professora

Mestre em Ilustração Científica pelo lnstituto Superior de Educação e Ciências e Universidade de Évora (ISEC/UE). Licenciada em Design de Comunicação (Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa). Frequentou cursos de ilustração científica na Fbaul e no Instituto de Artes e Ofícios da Universidade Autónoma de Lisboa.

Membro do Grupo do Risco desde 2013 e da Guild of Natural Science Illustrators desde 2011 (participação em exposições, publicações e artigos). Participação em congressos de ilustração e comunicação de ciência desde 2012. Participação premiada em exposições nacionais e internacionais, a título individual e colectivo.

Ilustradora científica e designer freelance desde 2009, produzindo trabalhos para divulgação científica e peças comerciais. Professora assistente na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. 

Vencedora do Primeiro Prémio, Casa das Ciências, Fundação Gulbenkian, Lisboa, Portugal, 2013; Prémio do Público, Concurso Internacional Illustraciencia, Barcelona, Espanha, 2012 e Prémio Escolha do Público, GNSI Annual Member’s Exhibit, Pei Ling Chan Gallery and Garden for the Arts, Savannah, Georgia, EUA, 2012.
www.luciaantunes.com | @antunes_lucia

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Luísa Crisóstomo

Desenhar para conhecer

A ilustração científica surge quando aliamos a arte à ciência para representar e comunicar informação relevante, atendendo sempre ao rigor científico e a uma estética apelativa.
Este tipo de ilustração, por norma muito detalhado, permite selecionar a informação, manipular a apresentação dos elementos e mostrar aquilo que não se vê, de forma a clarificar os conteúdos que se pretendem transmitir. O resultado pode ser, por exemplo, uma prancha descritiva, o esquema de um processo biológico ou uma representação mais naturalista de uma espécie, sendo que qualquer uma das abordagens pode ser útil no contexto adequado, conforme o objetivo final da ilustração.

Para garantir uma representação fiável e rigorosa do objeto a desenhar, o ilustrador necessita de usar referências. Estas podem ser obtidas através da observação e do registo das características de um espécime real, por exemplo, conservado num herbário no caso das plantas, um insecto preservado numa caixa entomológica ou um animal embalsamado. Por vezes, é também possível observar indivíduos in situ e proceder a registos mais precisos da sua essência real, podendo ainda ser complementados com registos fotográficos e informações descritivas. As referências são depois utilizadas para construir um desenho de um indivíduo típico que represente uma espécie no seu todo, procurando enfatizar as principais características que permitem a sua identificação.

A versatilidade é também uma mais-valia para o ilustrador quando este é capaz de dominar uma ampla variedade de materiais de desenho, seja na utilização de técnicas tradicionais, como tons contínuos em grafite, ponteado com tinta-da-china e pintura com aguarelas, por exemplo, ou técnicas digitais, que se adequam a finalidades distintas.

Para além do propósito principal ser a comunicação de ciência, a ilustração também constitui uma atrativa e importante ferramenta de aprendizagem, educação e sensibilização para a preservação e conservação da natureza, dos recursos e da biodiversidade. A ilustração permite, por um lado, dar a conhecer as espécies que nos são próximas e a sua importância e ainda atribuir um valor estético àquilo que por vezes se desconhece. Por outro lado, ensina-nos também a observar, a apreciar e a respeitar o meio natural, ao mesmo tempo que é capaz de promover o espírito crítico e o interesse em aprender. 

Referências bibliográficas:

HODGES, Elaine R. S. (2003). The Guild Handbook of Scientific Illustration. 2ª Edição, John Wiley & Sons Inc., New York, United States;

JASTRZEBSKI, Zbigniew T. (1985). Scientific Illustration: A Guide for the Beginning Artist. 1ª Edição, Prentice-Hall Inc., New Jersey, United States;

DALBY, Claire & DALBY, D. H. (1980). Biological Illustration: a guide to drawing for reproduction. Field Studies 5, p. 307-321;

CANFIELD, Michael R. et al. (2011). Field Notes on Science & Nature. HARVARD UNIVERSITY PRESS, Cambridge, Massachusetts, United States.

Biografia actualizada:

Luísa Crisóstomo é licenciada em Biologia e mestre em Biologia da Conservação. Atualmente trabalha como ilustradora científica, com ilustrações publicadas e participação em exposições, e tem organizado alguns workshops de desenho.